





























CASA INVERNADA


CUNHA - SP, 2025
250 m²
FOTOS: CAMILA ALBA
Implantada em uma encosta íngreme na paisagem montanhosa de Cunha, interior de São Paulo, a Casa Invernada pousa sobre um terreno com declividade próxima a 30 graus. Voltada para a face norte da montanha, ocupa o local onde, segundo a tradição da região, se fazia a "invernada" dos animais de criação, levados para tomar sol durante os dias mais frios.
Além de receber luz solar ao longo de praticamente todo o dia, a casa se lança em direção ao vale, abrindo-se como um leque para uma paisagem organizada em sucessivos planos de morros. As araucárias, características da região, constituem o primeiro plano dessa vista e estabelecem uma relação imediata entre a arquitetura e o território. Em dias de atmosfera limpa, o olhar atravessa o Vale do Paraíba e alcança, ao longe, a Serra da Mantiqueira.
O partido do projeto nasce justamente da leitura da topografia. A casa é estruturada por sete paredes espessas, posicionadas perpendicularmente às curvas de nível. Essa estratégia permite que a construção se acomode naturalmente à encosta, como se cada parede fosse uma vértebra, reduzindo os movimentos de terra e estabelecendo uma implantação que parece decorrer da própria lógica do lugar.
É a disposição dessas paredes que gera a forma singular da implantação, marcada por pequenas inflexões e deslocamentos que rompem com a rigidez da ortogonalidade. O resultado é uma arquitetura que se adapta ao relevo e transmite uma sensação de permanência, como se sempre tivesse pertencido àquela paisagem.
Espinha dorsal do projeto, as sete paredes estruturais organizam os espaços internos e definem a sequência dos ambientes — cozinha, sala e os quatro dormitórios —, sempre estabelecendo relações visuais com o vale e com a vegetação circundante.
Materialmente, o projeto é construído a partir de poucos elementos. As paredes emergem do terreno em concreto ciclópico, formando o embasamento necessário para vencer a declividade. A partir da cota do piso, transformam-se em alvenaria de tijolos caiados de branco, trazendo maior luminosidade e uma atmosfera acolhedora aos ambientes.
Internamente, o piso de pedra Goiás e a laje de concreto aparente encontram um contraponto nas superfícies brancas das paredes. O piso em cacos de pedra percorre toda a casa, unificando áreas sociais, dormitórios e até mesmo os ambientes molhados. As esquadrias voltadas para a paisagem são executadas em madeira maciça, elemento natural que reforça a continuidade entre interior e exterior. Nos dormitórios, painéis de muxarabi garantem privacidade e controle da incidência solar, desenhando a luz ao longo do dia.
Nos fundos da casa, um fechamento em cobogós envidraçados ilumina o corredor da circulação íntima. A luz filtrada por esse elemento cria uma atmosfera mais reservada, preservando a privacidade dos ambientes e, ao mesmo tempo, estabelecendo um jogo sutil entre luz, sombra e transparência, em diálogo com a encosta posterior da montanha.
A Casa Invernada resulta da estreita relação entre estrutura, topografia e paisagem. Implantada de forma a acompanhar o terreno, organiza os espaços em torno das vistas e das condições naturais do lugar, fazendo da própria geografia o princípio gerador da arquitetura.
